“Aqui é legal de morar. Ninguém vai mexer com vocês. É tranquilo.”
A dica recebida pela Regiane Cristina Albuquerque do Nascimento, a Cris, foi decisiva para que ela e o marido se instalassem em uma travessa da Avenida Paulista, uma das principais vias do país.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/q/o/iiLXMNTSSl5hU3n9GBfw/image00080.jpeg)
Os irmãos Mateus, 23, e Cris, 36, moram em uma barraca improvisada na região da Avenida Paulista. — Foto: André Catto/g1
Lonas, plásticos e mantas, sustentados por madeiras, canos e bambus, passaram a formar, então, o que a guarulhense de 36 anos chama hoje de lar.
A barraca de cerca de três metros de extensão e no máximo um e meio de largura ganhou forma com colchões usados, cobertores, objetos pessoais, itens de cozinha e de higiene.
“Apesar de estar na rua, aqui é tudo limpinho. Eu gosto de limpeza. Acabei de lavar a calçada. Pode se sentar”, diz Cris, solícita, ao encontrar a reportagem do g1.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/O/l/HDKd52RGKA56BXmVJpdA/image00050.jpeg)
Lonas, plásticos e mantas, sustentadas por madeiras, canos e bambus, formam o que a guarulhense de 36 anos chama hoje de lar. — Foto: André Catto/g1
Ela está em situação de rua há dois anos – metade deles instalada na calçada lateral do parque Prefeito Mário Covas, na Paulista. Com o marido, já morou em alguns pontos do centro de São Paulo, como o Largo São Bento e Anhangabaú.
“Quem me indicou para ficar aqui foram umas amigas trans que conheci na rua. Aqui era mais tranquilo, diferente dos outros lugares em que fiquei”, comenta.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/W/1/ipSmoxSOeFX0fBbVwBvw/image00017.jpeg)
Cris e Mateus moram em barraca improvisada em uma travessa da Avenida Paulista. — Foto: André Catto/g1
Crise financeira
A perda de uma renda fixa fez Cris ir para a rua. Ela e o marido recebiam, até o início da pandemia de Covid-19, pouco mais de um salário mínimo cada. Cris, trabalhando como açougueira em uma rede de supermercados. O marido, em um lava-rápido.
Juntos, levantavam cerca de R$ 3 mil por mês, o suficiente para o aluguel de R$ 750, que incluía água e luz. Os dois perderam emprego na mesma época, e viram as economias derreterem.
“A gente tinha economizado um dinheiro, mas zerou. A gente gostava de passear, até pegou um cachorro. Mas, com a pandemia, acabaram nossas economias. Aí ele me falou: ‘Vamos fazer o quê?’. Eu respondi: ‘Vamos pra rua’. E fomos”, conta.
Apesar de não ser o único motivo, a falta de renda é a principal causa a levar uma pessoa a viver em situação de rua, afirma Marco Natalino, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
“O fator econômico inclui falta de renda e de oportunidade de trabalho nos locais de moradia. Isso se manifesta também no caso de pessoas que até têm uma habitação longe dos grandes centros, mas passam a semana ou vários dias dormindo de forma improvisada nas ruas e trabalhando como lavador de carro, ambulante e outras coisas”, diz.
O país carece de dados oficiais sobre pessoas em situação de rua. Essa população ficou de fora inclusive do Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que contempla apenas pessoas domiciliadas.
Natalino explica que mapeamentos são essenciais para a elaboração de políticas públicas voltadas a essas pessoas. O estudo conduzido por ele – justamente com esse objetivo – estima o tamanho da população em situação de rua com base em dados de prefeituras e do Cadastro Único, do governo federal.
Os números consolidados de 2022 apontam pelo menos 281.472 pessoas vivendo nas ruas pelo país, o que representa uma alta de 38% em relação a 2019, período pré-pandemia.
“A partir de 2015, houve crescimento da população em situação de rua motivado pelo fator econômico, com aumento do desemprego, da informalidade, queda da renda e da alta da pobreza”, analisa o pesquisador, apontando o agravamento da situação com a crise sanitária de Covid-19.
Com a dificuldade de consolidação de dados por parte do poder público, os números reais, no entanto, podem ser ainda maiores.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/g/7/dtjrxgQ92UC9UUXARyQA/image00074.jpeg)
Barraca ganha forma com colchões usados, cobertores, mantas, objetos pessoais, itens de cozinha e de higiene. — Foto: André Catto/g1
Salto em um ano
A crise financeira também atingiu em cheio Mateus Albuquerque da Silva, de 23 anos, irmão de Cris. Ele tinha uma renda média mensal de R$ 2 mil, mas perdeu os bicos e não conseguiu se recolocar.
“Aí veio a pandemia. Eu ganhava dinheiro, e guardava. Só que, depois, quando fechou tudo e deu lockdown, não consegui mais guardar, porque não tinha como fazer. Só fui gastando, gastando, e não consegui mais ganhar”, relembra.
Sem renda, não deu conta do aluguel, e se viu sem saída. Em 2022, decidiu pedir ajuda à irmã, que o recebeu na barraca. Hoje, a estrutura montada na região da Paulista abriga Mateus, Cris, o marido e um rapaz adotado na rua, além dos oito cachorros deles.
Mateus é mais um entre os brasileiros que fizeram disparar o número de pessoas em situação de rua de 2021 para 2022, quando houve o maior avanço anual desde o início a série histórica compilada pelo pesquisador Marco Natalino.
O salto foi de 21% – 232.147 pessoas – para os atuais 281.472 brasileiros vivendo nessas condições.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/v/Z/SWxLAaSv60D7FHeW5vcQ/image00036.jpeg)
‘Fazer o quê? Ir pra rua’: crise deixa brasileiros sem renda e sem teto. — Foto: André Catto/g1
Além do fator econômico, Natalino aponta outros dois conjuntos de elementos que levam a essa realidade: a quebra de vínculos familiares e comunitários, que formam a primeira rede de apoio, e os aspectos ligados à saúde mental, que incluem o vício em drogas lícitas ou ilícitas.
A pandemia afetou as relações na base, que incluem família e amigos, afirma o pesquisador.
“Mesmo antes do Estado, nós contamos com pessoas do nosso círculo mais íntimo para nos apoiarem em situações adversas. A verdade é que a pandemia esgarçou alguns desses vínculos. Houve muitas brigas, separações, vínculos rompidos. E algumas pessoas também acabaram nas ruas por causa disso.”
Cris e Mateus, irmãos por parte de mãe, não têm uma rede de apoio consolidada. Apesar do contato com o pai de Mateus, padrasto de Cris, eles preferem “se virar”.
“Parente? Parente é nossos dentes”, diz Cris. “Na verdade, os únicos que tenho certeza de que não vão me trair são os meus cachorros. O resto…”, questiona. Mateus é sucinto sobre o tema: “A gente prefere seguir nossas vidas”.
Entre ‘manguear’ e receber auxílio
Conseguir dinheiro é um desafio para os dois, seja catando itens recicláveis pelas ruas ou vendendo produtos como esmaltes, canetas e garrafinhas d’água – essas últimas, recebidas em doações. “No lugar de tomar as águas, a gente guarda e vende. Aí consegue tirar um dinheiro”, diz Cris.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/9/A/8rMXEITwO6ELgWG5eHvQ/image00076.jpeg)
Cris mostra o ‘porta bic’ feito por Mateus e vendido por ela. — Foto: André Catto/g1
Eles também contam com a ajuda de estabelecimentos, moradores da região e de quem passa por ali. “Comecei a vender esmalte, a pedir – o que o pessoal na rua chama de ‘manguear’. Também vendo a caneta personalizada que o meu irmão faz, além de porta bic [isqueiro].”
Cris recebe o Auxílio Brasil, renda que ajuda a comprar a comida preparada utilizando um pequeno fogareiro à álcool. “No almoço, teve macarrão [ao] alho e óleo.”
Já Mateus não teve a mesma sorte com o benefício. “Eu tentei, mas não consegui até hoje. Eles falavam que eu não preenchia os pré-requisitos. Mas não explicaram quais eram. Não deram atenção”, relata. “Agora já desisti.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/y/W/MVCML8SBS8l5BB4oBAnA/image00068.jpeg)
Mateus mostra as canetas personalizadas que eles vendem. — Foto: André Catto/g1
Como frear esse cenário?
O primeiro passo para aprimorar as políticas públicas voltadas à população em situação de rua é melhorando os indicadores, diz Natalino. “Precisamos, primeiro, conhecer melhor essa realidade, para aí podermos tratar adequadamente.”
Em seguida, ele elenca alguns pontos considerados essenciais para amenizar a situação:
- Políticas de transferência de renda
São uma espécie de “vacina” contra os efeitos deletérios da pobreza sobre a vida das pessoas, afirma. “Há uma política de seguro desemprego. Mas, muitas vezes, como não há emprego formal pra essa população, o ideal são políticas de transferência de renda como o Bolsa Família.”
“Seria interessante pensarmos em transferências de renda pontuais para as situações de choque econômico. Às vezes é o desemprego ou a morte da pessoa provedora econômica da família que leva a essa situação de vulnerabilidade. E pode resultar não só em uma situação de rua, mas uma série de outros problemas derivados da pobreza”, alerta.
!['No almoço, teve macarrão [ao] alho e óleo', diz Cris. — Foto: André Catto/g1](https://s2.glbimg.com/ErSKKKnbc5dP0mlUf9hpNuhGCYQ=/603x27:4032x3024/1008x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/s/g/ts3JxTRL6UcD6F2lOjAw/image00062.jpeg)
‘No almoço, teve macarrão [ao] alho e óleo’, diz Cris. — Foto: André Catto/g1
- Melhora na infraestrutura da assistência social
Isso inclui um atendimento mais digno em espaços de convivência e atendimento psicossocial, além da melhora dos albergues e dos abrigos sociais, com ambientes mais limpos e tratamento de melhor qualidade.
“Eu chamo esse aspecto de reordenamento institucional das políticas de assistência social”, diz o pesquisador.
- Políticas de saúde
O destaque negativo vai para a exclusão dessa população dos equipamentos de saúde. “Às vezes a pessoa chega lá sem documento e não é atendida. Ou chega em uma situação em que é estigmatizada e não consegue atendimento. Isso tem que mudar.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/X/e/oKIsxNSBmUjUz042eujg/fogareiro.jpg)
Cris mostra o fogareiro à álcool utilizado para cozinhar. — Foto: André Catto/g1
- Políticas habitacionais
É um aspecto que vem ganhando força, afirma Natalino. Ele explica que existe uma tendência entre especialistas, sociedade civil e governos municipais, estaduais e federal de adotar uma metodologia de ‘moradia primeiro’.
“Ou seja, identificar a situação de rua como um problema, antes de tudo, de falta de moradia. E, a partir daí, pensar em políticas habitacionais.”
“É interessante porque alia o acesso à moradia a serviços de assistência social e serviços psicossociais, para que a pessoa consiga botar sua vida nos eixos. E é o que a experiência internacional mostra que tem melhor resultado”, conclui.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/q/v/MNvZySRyuhBtZJAomYuw/image00006.jpeg)
Primeiro passo para aprimorar as políticas públicas voltadas à população em situação de rua é melhorando os indicadores, diz pesquisador. — Foto: André Catto/g1
















