lhéus e a Gestão do Espelho: Perfume na Praça, Falta de Governo no Chão


_Entre praças maquiadas, radares em série, shows milionários e servidores contratados desvalorizados, Ilhéus enfrenta uma gestão que se mira no espelho, mas não enxerga o povo._
Depois de analisarmos o papel da imprensa ilheense, ora tímida, ora conveniente, ora calada, avançamos para o segundo ponto desta série, a governança. Ou, no caso de Ilhéus, aquela pálida sombra de governança que tenta parecer governo, mas que só entrega estética, improviso e um Instagram bem montado (o do prefeito e não o da prefeitura).
Ilhéus hoje parece uma cidade mantida dentro de uma vitrine. Bem iluminada, enfeitada nas áreas centrais, com praças reformadas e pinturas impecáveis, enquanto, a poucos metros dali, o primeiro sinal de chuva traz de volta o velho fantasma dos alagamentos. Nada estrutural, nada profundo. Tudo cosmético. Perfume por cima de remendos malfeitos.
E como se não bastasse o cenário de maquiagem urbana, vemos a instalação massiva de radares por toda parte, um verdadeiro “sexto sentido” tecnológico, estrategicamente posicionado em locais que levantam mais desconfianças do que reduzem acidentes. A segurança viária é e deve ser prioridade, mas o exagero, quando não vem sustentado por estudos públicos e transparentes, perde qualquer caráter técnico e ganha feição de abuso. É arrecadação no modo automático, quando falta diálogo, entra a multa.
O curioso (e triste) é que essa ânsia arrecadatória cresce exatamente em um governo que, desde o início, demonstra inexperiência política, isolamento e incapacidade de articulação. Onde falta habilidade para somar, sobra pressa para punir. Onde falta planejamento, sobra improviso. Onde faltam alianças, sobram radares.
E não é coincidência, gestões acuadas recorrem a medidas impopulares porque não conseguem produzir resultados estruturados. Em vez de buscar recursos através de articulação inteligente com Estado e União (independente de posições políticos ou situações e oposições), opta-se pela receita rápida, aquela que vem diretamente do bolso do cidadão. Vira um paliativo financeiro para uma administração que não conseguiu construir estabilidade, confiança ou governabilidade.
E enquanto isso, a vida real da população segue esquecida, especialmente de quem mais precisa. Nos distritos, a precariedade do acesso à saúde, a falta de infraestrutura, o abandono das estradas, a ausência de políticas sólidas de escoamento e produção só comprovam que a cidade vista da sala refrigerada não é a cidade vivida por quem acorda cedo. A gestão parece importar soluções de outras cidades, de outros contextos, de outros mundos. Soluções que não cabem em Ilhéus, que não entendem Ilhéus, que não tocam o chão de Ilhéus.
Mas nada sintetiza tão bem o colapso das prioridades quanto o episódio recente dos servidores contratados sem direito ao 13º e às férias.
Homens e mulheres que carregam escolas, postos de saúde, setores administrativos, serviços essenciais. Gente real, com família, contas, dignidade e o mais curioso, pessoas escolhidas “a dedo”, aqueles que são tidos como cargos de confiança do governo. Mas que agora recebe a resposta fria da burocracia seletiva: “não está previsto”.
Enquanto não se prevê direitos de quem trabalha, se prevê e com muita antecedência, milimetricamente planejado uma virada de ano que vai contra qualquer argumento de justificativa (desculpas) de crises financeiras. E vai rolar a festa!
Em Ilhéus, falta pão, mas o circo está está garantido. E que circo. Serão três dias de megaeventos, nomes nacionais, queima de fogos, palco gigantesco, praça de alimentação, camarote da imprensa, tudo impecável, tudo grandioso, tudo pronto para o post perfeito (aquele que rende aplauso digital enquanto o trabalhador da educação faz malabarismo com as contas). O mesmo trabalhador que ouviu da gestão que não tem direito ao que está garantido na legislação federal.
A inversão de prioridades é tão explícita que dispensa qualquer interpretação.
O centro recebe flores. Os distritos recebem poeira.
A cidade ganha radares. As escolas continuam sem reforma.
Os motoristas ganham multas. Os servidores ganham calote..
A população ganha espetáculo. O perfil do prefeito ganha curtidas.
Alguns ganham e muito. Já Ilhéus… nada, nem governo, nem governança.
E aqui está o tom que precisa ser dito, não é a tecnologia que substitui a capacidade de governar. Nem tampouco um show substitui a ausência de políticas públicas. Governar exige articulação, escuta, técnica, responsabilidade fiscal, estabilidade política e compromisso com a vida cotidiana dos cidadãos, aquilo que não aparece em vídeo, não vira imagem bonita de drone, nem gera engajamento imediato.
Por isso, este editorial é também um convite, firme, mas necessário, à gestão municipal. Desça da vitrine. Saia da sala climatizada. Caminhe pelas estradas vicinais, pelas escadarias, nos altos e morros, pelos bairros mais afastados. Entre nas escolas, converse com quem não está nas rodas sociais. Olhe para além da Soares Lopes.
Tire a governança do Instagram e coloque ela nas ruas, nos becos, nas comunidades, nos distritos, onde a cidade exige compromisso. E por fim, apresente os estudos. Os de trânsito, os de impacto, os de requalificação, os de mobilidade. Prove, com dados e com seriedade, que esta administração sabe ser técnica e não apenas arrecadadora. Prove que sabe governar para além do palco.
Porque a cidade, a verdadeira cidade, não vive de likes, nem de luzes. Vive de respeito, planejamento e prioridades claras. E Ilhéus, neste momento, não tem recebido nenhum dos três.
Na próxima semana, quero falar um pouco mais sobre a nossa responsabilidade em tudo isso. Não estou aqui para só apontar o dedo, mas também para assumir responsabilidades enquanto cidadão.
Quer acompanhar essas e outras análises da nossa realidade? Então, vem comigo!














