O silêncio que também alimenta escândalos. O véu da merenda escolar, santidade ou desvios?


A operação da Polícia Federal sobre suspeitas de desvios na merenda escolar em Ilhéus expõe não apenas a gravidade do caso, mas também o silêncio de parte da imprensa local diante da investigação_
Existe algo particularmente degradante em uma investigação da Polícia Federal envolvendo recursos da merenda escolar. Porque a suspeita não recai sobre uma obra superfaturada qualquer, sobre um contrato abstrato da burocracia pública ou sobre disputas administrativas distantes da vida real. A suspeita atinge diretamente a alimentação de crianças. Atinge estudantes que muitas vezes chegam às escolas municipais esperando encontrar ali a refeição mais importante do dia. Em uma cidade marcada por desigualdade social, desemprego e insegurança alimentar, a merenda escolar não é simples complemento nutricional. Para inúmeras famílias, ela representa dignidade mínima, permanência escolar e até sobrevivência silenciosa.
É justamente isso que torna a Operação Merenda Digna tão devastadora para Ilhéus. A investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União apura suspeitas de irregularidades em um contrato emergencial de R$ 15,5 milhões destinado ao fornecimento de alimentação escolar na rede municipal. Segundo os investigadores, existem indícios de direcionamento contratual e possível superfaturamento superior a R$ 1,7 milhão. E o impacto político e moral da operação se torna ainda maior porque, desde o início do ano letivo, pais, estudantes e profissionais da educação já vinham relatando problemas relacionados à merenda, incluindo baixa qualidade dos alimentos, falta de itens básicos e precariedade no abastecimento em diversas unidades escolares.
Enquanto crianças enfrentavam dificuldades dentro das escolas, milhões teriam circulado circulado em contratos que agora estão sob investigação federal. E talvez seja exatamente por isso que a postura de parte da imprensa local tenha chamado a atenção.
E aqui, faço uma breve comparação de posturas. Em 2024, quando operações da Polícia Federal atingiram a gestão do prefeito da época e seu grupo político, Ilhéus assistiu a uma cobertura intensa, praticamente permanente e carregada de indignação editorial. Programas especiais, comentários diários, análises aprofundadas e uma exploração contínua de cada detalhe das investigações dominaram o ambiente político e midiático da cidade. Naquele contexto, grande parte da imprensa local já havia rompido politicamente com a gestão municipal e isso se refletia claramente na forma como os fatos eram tratados publicamente.
Agora, diante de uma investigação que envolve justamente recursos destinados à alimentação escolar, a reação parece ter seguido um caminho completamente diferente. Apesar da enorme repercussão estadual e nacional da Operação Merenda Digna, boa parte da mídia local limitou-se à reprodução de boletins, notas oficiais e registros superficiais do caso. O ímpeto investigativo praticamente desapareceu. A indignação editorial perdeu volume. O aprofundamento cedeu espaço à cautela. E a diferença entre as coberturas anteriores e a atual se tornou tão evidente que passou a produzir um inevitável questionamento público.
Evidentemente, a investigação ainda está em andamento e não cabe antecipar condenações ou desrespeitar garantias legais. O devido processo legal precisa ser preservado integralmente. Mas isso não elimina o papel do jornalismo de exercer fiscalização crítica, sobretudo quando a suspeita envolve uma área tão sensível da administração pública. O problema não está na prudência. Prudência é obrigação. O problema está na aparente seletividade da indignação.
Porque quando determinados grupos políticos eram alvo das operações anteriores, sobravam espaço, pressão narrativa e disposição para transformar cada novo detalhe em pauta permanente de debate público. Agora, diante de suspeitas relacionadas à merenda escolar, parte da imprensa local parece ter optado por reduzir drasticamente a temperatura da cobertura. E a cidade percebe esse tipo de comportamento com facilidade. Percebe quando existe excesso de coragem diante de uns e excesso de delicadeza diante de outros. Percebe quando a intensidade da indignação parece variar conforme a relação política construída com o governo de plantão.
Talvez o aspecto mais preocupante dessa situação seja justamente o desgaste gradual da confiança pública no próprio jornalismo local. Uma imprensa que aparenta modular sua contundência conforme o grupo político investigado deixa de funcionar plenamente como instrumento de fiscalização social e passa a alimentar suspeitas sobre seus próprios alinhamentos e conveniências institucionais. O jornalismo perde força quando a coerência desaparece. E uma cidade onde parte da imprensa parece diminuir o volume da própria voz diante de determinados escândalos se torna ainda mais vulnerável politicamente.
Enquanto isso, milhares de crianças continuam entrando diariamente nas escolas municipais esperando encontrar ali aquilo que deveria ser o mínimo garantido por qualquer gestão pública séria. Alimentação digna, respeito e responsabilidade administrativa. Talvez por isso a Operação Merenda Digna produza um impacto tão profundo em Ilhéus. Porque ela não expõe apenas suspeitas sobre contratos públicos. Ela expõe também o desconfortável silêncio de setores que, em outros momentos, pareciam muito mais dispostos a transformar operações policiais em cruzadas públicas de indignação moral.








