A Ilhéus que brilha e a Ilhéus que afunda


_Uma cidade que inaugura túneis de água com iluminação cênica no centro enquanto convive com esgoto, escuridão e abandono nas periferias precisa responder a uma pergunta urgente, quem está sendo revitalizado de verdade: o espaço público ou a consciência tranquila de quem só cuida do que vê?_
Ilhéus acaba de ganhar mais uma praça revitalizada, a Misael Tavares, um espaço bonito, cheio de paisagismo, iluminação nova, acessibilidade e até um túnel de água luminosa que já virou atração. É o tipo de obra que rende foto, rende postagem e rende aquela sensação de que a cidade está no rumo certo. Mas, enquanto a água dança no centro, o esgoto continua correndo ar livreto em outros cantos (uns nem tão longe do centro não). E aí a pergunta precisa ser feita com sinceridade, para quem é esse brilho todo?
A sensação que tenho é a mesma que amigos soteropolitanos tinham quando o netinho do avô poderoso como prefeito. Nestes anos, praças foram renovadas, intervenções no trânsito aconteceram e radares surgiam com velocidade e entusiasmo. Parecia que a gestão quisesse resolver a cidade pela superfície, criando um ar de modernidade onde mais se vê, onde mais se visita, onde mais se comenta. Em Ilhéus, a receita parece ter sido importada e adaptada ao cenário local, só que com um agravante, um município órfão, já que se coloca na oposição aos governos estadual e federal, como sempre aponto aqui. Ilhéus tem perdido cada vez mais a sua capacidade de negociação com as esferas superiores e, quando não há diálogo, resta focar no floreio, na maquiagem.
Desde o início da gestão, em janeiro desde ano, temos visto várias praças públicas centrais ou, em locais em que uma população, digamos, com certos privilégios, circulam mais, serem revitalizadas e inauguradas. Praças que poderiam receber requalificação, sim, mas também poderiam esperar por mais tempo para essas medidas chegarem, em comparação com outras ações que a população ilheense precisa com bem mais urgência. Mas, nesta sexta-feira, 14, a Praça Misael Tavares recebeu traje de gala. Na verdade, uma parte dela, já que recentemente ela havia sido requalificada e recebido a Maria Fumaça e espaços de convivência.
Ninguém discute que praças são importantes, que espaços públicos bem cuidados elevam a autoestima e ajudam a formar a vida urbana, ainda mais em uma cidade em que a sua beleza gera renda. O problema é a desigualdade no mapa dessa revitalização. Quantas praças estão recebendo o mesmo cuidado no Vilela, no Salobrinho, nos altos e morros, no Banco da Vitória, nos distritos, nas áreas rurais? Quantas quadras periféricas ganharam iluminação? Quantos espaços de lazer existem onde a cidade realmente vive e não apenas onde ela se exibe?
Vamos propor uma imersão. Para quem quiser, de fato, conhecer Ilhéus, venha comigo até o Teotônio Vilela, o bairro mais populoso de Ilhéus. É impossível você sair de lá sem uma sensação de que aquela população precisa de uma presença urgente do governo Municipal.
O que lhes falta é o básico: saneamento, saúde, assistência, respeito, consideração. Esgoto ao ar livre, ruas esburacadas e sem pavimento, áreas escuras, escolas com estruturas frágeis, um posto de saúde que se tornou promessa eterna. As belezas das praças inauguradas nas áreas nobres e centrais contrastam com valas abertas e casas em ocupações irregulares, onde famílias buscam abrigo porque o custo da moradia os vem expulsando da própria cidade. As áreas nobres se valorizam, enquanto outras se adensam sem planejamento algum, criando um processo silencioso de favelização. E aqui, de novo, a pergunta se impõe, quem está ganhando com esse modelo de desenvolvimento?
Até projetos mais amplos, como a requalificação do Canal do Malhado, que estacionaram no âmbito estadual, exigem ao menos uma manutenção digna do município, que precisa tornar o entorno mais saudável e menos degradado. O mesmo vale para a Central de Abastecimento e para tantas outras áreas que não têm o mesmo glamour das praças recém-inauguradas, mas que sustentam o cotidiano da cidade.
E quando olhamos para as obras de mobilidade, a sensação é parecida. Alterações de trânsito que dizem pretender melhorar a circulação acabam beneficiando determinados corredores e grupos mais próximos da gestão, enquanto boa parte da população continua enfrentando longas esperas, congestionamentos e acidentes. Será que essa política de trânsito está realmente pensando em toda a cidade ou apenas reforçando privilégios de sempre?
A impressão é que Ilhéus vive um urbanismo seletivo, uma revitalização que para na linha invisível onde termina o cartão-postal e começa a cidade real. É como se existisse uma Ilhéus que merece atenção e outra que só merece espera. E talvez a questão mais profunda seja essa, quem diz amar Ilhéus está amando o município inteiro ou apenas os espaços que frequenta e que aparecem bem na foto?
A cidade precisa de luz, mas não só dos LEDs da avenida. Precisa de cuidado, mas não só dos locais por onde se passa a passeio. Precisa de política pública, mas não só da que rende palanque. Precisa, sobretudo, de respeito ao ilheense que vive fora do circuito dos cartões-postais, justamente aqueles que mantém a nossa cidade funcionando todos os dias.
No fim das contas, vale parar, respirar e olhar ao redor. Ilhéus está se revitalizando, sim, mas a pergunta que acompanha cada praça inaugurada, cada túnel de água e iluminação moderna, cada novo espaço instagramável é sempre a mesma e talvez seja a mais importante, revitalizando para quem?














