
Laudicéa Carvalho. Jornalista, radialista, ativista e Presidente da Associação Bariátrica de Ilhéus e Região
O resultado do primeiro turno traz alegria pela Bahia, mas também nos chama à responsabilidade diante do que ainda está em disputa no país
Eu acordei depois do primeiro turno com dois sentimentos muito fortes. Primeiro, a alegria. A Bahia fez sua escolha, Jerônimo Rodrigues reeleito governador no primeiro turno, Rui Costa e Jaques Wagner conquistaram as duas vagas no Senado e ainda tivemos a eleição de nomes importantes para a Câmara, como meu deputado federal Jorge Solla. São resultados que me dão alegria e acima de tudo, renovam minha esperança de que ainda temos forças importantes no campo progressista para continuar acreditando e lutando por um Brasil mais justo.
Mas eu também acordei com uma preocupação enorme. Porque não podemos olhar para a Bahia e esquecer o Brasil. Não podemos comemorar uma vitória e achar que a caminhada terminou. O Brasil volta às urnas no dia 25 de outubro para o segundo turno presidencial e esse momento exige consciência, participação e disposição para conversar.
Eu continuo acreditando que o resultado de uma eleição precisa ser lido para além dos números. Ele também revela como diferentes parcelas da sociedade enxergam o país, quais são suas preocupações, seus interesses e, principalmente, quais realidades conseguem enxergar. Porque o Brasil não é vivido da mesma maneira por quem olha a vida de uma cobertura ou por quem precisa fazer malabarismo para colocar comida na mesa. Talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes contradições da nossa democracia.
Quanto aos mais ricos, é impossível ignorar a grande ironia. Há uma parcela dessa elite que estudou nas melhores escolas, viajou pelo mundo, conhece as grandes economias, fala sobre liberdade de mercado com uma desenvoltura impressionante e, ainda assim, parece ter uma dificuldade quase comovente de compreender o país onde vive.
Sabe calcular patrimônio, mas não consegue (quer) calcular o impacto de uma política pública na vida de quem não tem patrimônio algum. Defende meritocracia com entusiasmo, desde que ninguém pergunte de quem herdou seus “méritos”. Fala em liberdade individual, mas esquece que liberdade também significa ter condições mínimas para escolher o próprio caminho.
Para alguns destes, o Estado é sempre grande demais quando se trata de garantir direitos para quem realmente precisa; mas nunca parece grande demais quando tem que oferecer infraestrutura, segurança, crédito, incentivos, contratos ou qualquer outra estrutura necessária para proteger seus próprios negócios.
Não são todos, não cometeria aqui essa preguiça intelectual da generalização. Fale com a parcela que parece ter transformado o próprio privilégio em lente para enxergar o mundo. E quando isso acontece, pobreza deixa de ser uma questão social e passa a ser tratada como defeito individual. O problema é que, quem nunca precisou escolher entre comprar remédio ou comida, costuma ter uma opinião bastante confortável sobre responsabilidade pessoal dos que explora.
Com a classe média a preocupação é outra. E aqui uso a divisão de classes considerada pelo senso comum, sem tecnicidades acadêmicas. Mas, a preocupação é outra, pois essa é uma classe que, em grande parte, tem acesso à informação, mas parece ter perdido a capacidade de interpretá-la. Nunca tivemos tantos meios para conferir uma informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil acreditar em qualquer coisa. Uma mensagem chega no WhatsApp, um vídeo aparece nas redes sociais, alguém faz uma afirmação com convicção e pronto, a mentira ganha aparência de verdade.
Eu vejo pessoas inteligentes compartilhando informações sem fonte. Vejo gente que estudou acreditando em conteúdo que não resistiria a cinco minutos de verificação. Pessoas discutindo política a partir de manchetes, cortes de vídeos e frases isoladas. Isso é perigoso! Uma democracia não pode ser construída sobre aquilo que nós queremos acreditar, ela precisa ser construída sobre fatos, argumentos e capacidade de discernimento e boa intenção (queria falar caráter, mas vamos manter assim).
E aqui eu preciso abrir um parêntese sobre quem deveria ajudar justamente nessa tarefa e aqui eu posso falar com a propriedade de décadas de profissionalismo e responsabilidade. A imprensa, meus colegas, tem uma responsabilidade enorme e, muitas vezes, falha miseravelmente em cumpri-la. Quando a cobertura abandona a complexidade dos fatos, escolhe o que merece destaque conforme interesses editoriais, comerciais ou políticos, transforma disputa pública em espetáculo e deixa de olhar para quem está na ponta, ela também ajuda a deformar a realidade. Não estou dizendo que toda imprensa é assim, nem que todo jornalista trabalha dessa maneira. Estou dizendo que não podemos fingir que interesses econômicos e políticos não atravessam a comunicação. E isso vale também para quem ocupa espaços de liderança, como líderes religiosos, representantes comunitários, dirigentes de entidades e outras pessoas que possuem autoridade sobre seus grupos. Vocês precisam entender o tamanho da responsabilidade que carregam. Um púlpito, uma reunião, uma associação ou qualquer espaço de influência não pode virar licença para espalhar informação falsa como se fosse verdade. Quem tem voz pública precisa ter responsabilidade pública.
Dito isso, passo a olhar para os mais pobres e é aqui que essa situação me incomoda ainda mais. Porque são eles que muitas vezes acabam pagando a conta das decisões tomadas por quem está nos andares de cima. São eles que dependem das políticas sociais, do SUS, da escola pública, dos programas de transferência de renda, do salário mínimo, das políticas de emprego, de moradia, de alimentação… e, ainda assim, são justamente eles que muitas vezes são convencidos de que esses direitos são favores.
Não os culpo por isso, eu me recuso a fazer esse julgamento. Quem passa a vida lutando para colocar comida dentro de casa não deveria ser responsabilizado por não conhecer profundamente o funcionamento do orçamento público, da política econômica ou das instituições brasileiras. A responsabilidade de quem tem acesso à informação é ajudar a abrir caminhos para que mais pessoas possam compreender a realidade e não utilizar a falta de informação como instrumento de manipulação.
Ninguém precisa de quem pense por ele. Precisa de condições para pensar por si mesmo, decidir por si mesmo e escolher o próprio caminho. Talvez seja aí que esteja uma das maiores forças deste segundo turno. Tivemos mais de 33 milhões de brasileiros ausentes das urnas no primeiro turno. A abstenção chegou a 21,08%. É um número grande demais para ser tratado como simples estatística.
Não quero simplesmente chamar quem não votou de irresponsável. Existem razões diferentes para uma pessoa não comparecer às urnas. Mas também não podemos tratar a ausência como se ela não tivesse consequência. O segundo turno é uma nova eleição e, quem não votou no primeiro turno poderá votar no segundo, desde que esteja com a situação eleitoral regular.
Por isso, eu não quero que a alegria pelo resultado da Bahia nos acomode, quero que ela nos dê força. Quero comemorar Jerônimo, Rui, Wagner, Solla e tantos outros companheiros que seguem representando uma esperança política. Mas quero, principalmente, compreender que a disputa nacional continua. Quero conversar com quem não foi votar. Quero procurar quem está desanimado. Quero ouvir quem está cheio de dúvidas. Quero conversar inclusive com quem pensa diferente de mim. Porque convencer não é humilhar, debater não é agredir, discordar não é odiar e fazer política não deveria significar destruir o outro.
Nós precisamos voltar a falar de projeto de país, de comida na mesa, de emprego, de educação, saúde, moradia, ciência, desenvolvimento, soberania, democracia, de futuro. Precisamos falar de dignidade!
Precisamos perguntar, diante de cada promessa e de cada discurso, quem ganha, quem perde, quem paga e quais consequências aquela escolha pode produzir na vida real. Eu não quero um Brasil dividido entre quem pode pagar para viver bem e quem precisa lutar diariamente para sobreviver.
Não quero um Brasil onde a pobreza seja tratada como culpa individual. Não quero um país em que a mentira tenha mais velocidade do que a verdade. Não quero uma sociedade em que pessoas desistam da política porque acreditam que nada pode mudar.
Eu ainda acredito que pode! Mas acreditar não basta, é preciso esperançar. E esperançar é colocar o pé na rua, é conversar, é ouvir, é estudar, é conferir, é argumentar. É chamar quem não participou para participar. É procurar quem está em dúvida sem tratá-lo como inimigo. Mostrar que cada voto é uma decisão sobre o país que queremos construir.
O segundo turno será no dia 25 de outubro e eu quero chegar até lá tendo feito a minha parte. Sem violência, sem mentira, sem difamação, sem ameaças, sem transformar adversário político em inimigo pessoal. Mas também sem silêncio. Sem omissão. Sem fingir que nada está acontecendo.
A Bahia já falou. Agora o Brasil vai falar novamente! E nós precisamos estar presentes nessa conversa. Arregaçar as mangas, abrir os olhos, buscar informação, recuperar a capacidade de pensar e ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo.
Porque a democracia não se resume ao momento em que apertamos a tecla da urna. Ela começa muito antes, começa quando decidimos não aceitar qualquer mentira como verdade, quando entendemos que política não é assunto dos outros, quando percebemos que aquilo que acontece em Brasília também chega dentro da nossa casa. E começa, sobretudo, quando compreendemos que o futuro de uma nação e o nosso, não é construído apenas por quem ocupa os palácios. É construído por nós.
Eu sigo esperançando, com os pés no chão, os olhos abertos e as mangas arregaçadas, pois ainda temos muito trabalho pela frente e, enquanto houver gente disposta a lutar pela democracia, pela dignidade e pela vida, eu me recuso a desistir do meu, do nosso Brasil!












