
Por que a malha municipal, e não os grandes puxadores, tende a decidir a bancada federal do PSD na Bahia em 2026 – Por Jerbson Moraes

Quando a Justiça Eleitoral concluiu a totalização dos votos na Bahia, em outubro de 2022, um resultado passou quase despercebido pela cobertura política do estado: Raimundo Costa, do Podemos, elegeu-se deputado federal com 53.486 votos, enquanto Charles Fernandes, do PSD, que obtivera praticamente o dobro dessa votação, permaneceu na suplência. Não houve falha de apuração nem excentricidade regional. Houve o funcionamento ordinário de um sistema que a opinião pública insiste em ler como se fosse majoritário e que, no entanto, atribui cadeiras a partidos antes de atribuí-las a pessoas.
A distinção, aparentemente técnica, é justamente o que separa uma projeção eleitoral consistente de um exercício de aritmética ingênua. Naquele pleito, os 7.959.430 votos válidos para deputado federal na Bahia, divididos pelas 39 vagas do estado, produziram um quociente eleitoral de 204.088 votos. Esse é o preço de uma cadeira, e quem o paga é a legenda; ao candidato cabe apenas posicionar-se na ordem interna da nominata para ocupá-la. Compreendido isso, a pergunta que interessa deixa de ser quantos votos cada nome do PSD fará em 2026 e passa a ser quanto a chapa, somada, será capaz de produzir.
Formulada nesses termos, a questão admite uma resposta que contraria a leitura hoje dominante nos bastidores da política baiana. Sustento, na condição de hipótese analítica ainda a ser testada pela campanha, que o PSD reúne condições de eleger sete deputados federais, o que representaria a maior bancada de sua história no estado. Caso isso ocorra, não terá decorrido de otimismo partidário, mas de três fatores mensuráveis: o modo como as eleições simultâneas se organizam no federalismo brasileiro, o papel das lideranças municipais na intermediação do voto e o desenho legal da distribuição de sobras vigente desde 2021.
Convém, antes, reconhecer o passivo sem atenuações. O PSD perdeu, de uma eleição para outra, dois dos maiores votados da Bahia. Otto Alencar Filho, o parlamentar mais votado do estado em 2022, com 200.909 votos, deixou o mandato para assumir cadeira de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado; Diego Coronel, terceiro colocado, com 171.684 votos, migrou para o Republicanos em março deste ano, ao lado do senador Angelo Coronel e do restante do grupo familiar, integrando-se formalmente à oposição. São 372.593 votos nominais subtraídos da chapa, dos quais mais de 170 mil não apenas saem, como passam a computar em legenda adversária. Nenhuma projeção honesta pode contornar esse dado.
O que ela pode, e deve, é interpretá-lo corretamente. Contabilizar pessoas não é o mesmo que contabilizar partidos, e a ciência política produziu, ao longo das últimas três décadas, um conjunto razoavelmente estável de achados sobre o que efetivamente determina o desempenho de uma legenda nas eleições proporcionais brasileiras.
O primeiro desses achados é o efeito de arrasto governamental. David Samuels demonstrou, em trabalho publicado no Journal of Politics em 2000 e posteriormente desenvolvido em Ambition, Federalism, and Legislative Politics in Brazil, pela Cambridge University Press, que os incentivos eleitorais no Brasil são estaduais, e não nacionais: candidatos ao Congresso orientam-se pela disputa ao governo do estado, e não pela eleição presidencial. O dado que sustenta a tese é simples: o número efetivo de candidaturas ao governo do estado prevê o número efetivo de listas concorrentes à Câmara naquele estado, ao passo que a fragmentação da disputa presidencial nada prevê. A razão é institucional: a circunscrição do governador e a do deputado federal são rigorosamente a mesma, e é o candidato majoritário estadual quem controla nomeações, alianças e recursos capazes de mobilizar as bases locais.
A consequência prática dessa constatação para 2026 é direta. O fator externo mais relevante para o desempenho proporcional do PSD baiano não está no PSD, mas em Jerônimo Rodrigues. Caso o governador confirme nas urnas a recomposição de apoio que as pesquisas vêm registrando, e sobretudo caso vença ainda no primeiro turno, o arrasto tenderá a converter-se em maior empenho das bases aliadas nos municípios durante as semanas decisivas da campanha. Na hipótese de esse movimento se materializar, nenhum partido da coalizão governista estará mais bem posicionado do que o PSD para capturá-lo.
O segundo achado diz respeito ao papel dos intermediários locais e merece ser exposto com o desconforto que traz, porque ele corta nos dois sentidos. Lucas Novaes, em artigo publicado na American Political Science Review em 2018, demonstrou que a fragilidade eleitoral dos partidos brasileiros decorre em boa medida da deslealdade dos corretores políticos, isto é, dos candidatos a prefeito e lideranças locais que intermedeiam o voto entre a legenda e o eleitorado não partidário. Valendo-se de experimentos naturais e de uma reforma institucional transitória que desestimulou a troca de partido, Novaes estabeleceu relação causal entre a migração desses intermediários e a queda da votação da legenda para deputado.
É exatamente esse o risco que a saída do grupo Coronel representa, e seria intelectualmente desonesto minimizá-lo. Ocorre que o mesmo achado, lido em sentido inverso, descreve o principal ativo do PSD: a acumulação de corretores leais. O partido chegou a 2026 com mais de uma centena de prefeituras baianas, a maior malha municipal do campo governista, além de presidir a Assembleia Legislativa e comandar secretarias estaduais com forte presença no interior. A diferença decisiva é geográfica. A rede dos Coronel é territorialmente concentrada, com epicentro em Coração de Maria e no eixo de Feira de Santana; a rede que permanece com o PSD é difusa e recobre praticamente todas as regiões do estado, do oeste ao extremo sul.
Resta o terceiro fator, e é aqui que a hipótese das sete cadeiras encontra sua sustentação técnica mais firme. A Lei nº 14.211, de 2021, reorganizou a distribuição de vagas proporcionais em fases sucessivas. Na primeira, as cadeiras cabem aos partidos que atingiram o quociente eleitoral e são preenchidas por candidatos com votação nominal igual ou superior a 10% desse quociente. Na segunda, que corresponde à primeira etapa de sobras, concorrem apenas as legendas que alcançaram ao menos 80% do quociente e que disponham de candidatos com votação igual ou superior a 20% dele. Na terceira, residual, o Supremo Tribunal Federal invalidou a cláusula de barreira ao julgar as Ações Diretas de Inconstitucionalidade nº 7.228, 7.263 e 7.325, em fevereiro de 2024, de modo que todos os partidos passaram a concorrer.
O detalhe decisivo está na segunda fase, que é onde a sétima cadeira baiana tende a ser efetivamente disputada. As sobras são atribuídas por maior média, em rodadas sucessivas, e um partido só permanece habilitado a receber vaga adicional enquanto ainda dispuser de candidato não eleito acima de 20% do quociente eleitoral, patamar que, projetado para 2026, situa-se em torno de 41 mil votos. Chapas construídas sobre dois ou três grandes puxadores esgotam rapidamente seus nomes elegíveis e abandonam a disputa por sobras ainda que apresentem médias competitivas. Chapas profundas e uniformemente distribuídas permanecem habilitadas rodada após rodada. A estratégia territorial do PSD, frequentemente descrita como ausência de estrela, é precisamente aquilo que a legislação vigente premia.
Postas essas premissas, apresento a projeção que considero mais consistente para os principais candidatos da legenda, ressalvado que se trata de estimativa política, e não de prognóstico derivado de resultados oficiais.
Cenário projetado: estimativa de desempenho da chapa do PSD para deputado federal na Bahia em 2026
| Candidato | Votação projetada |
| Antônio Brito | 180 mil |
| Daniel Alencar | 170 mil |
| Gabriel Nunes | 150 mil |
| Sérgio Brito | 145 mil |
| Paulo Magalhães | 125 mil |
| Charles Fernandes | 115 mil |
| Bebeto Galvão | 90 mil |
| Subtotal dos sete | 975 mil |
| Demais 17 candidatos e votos de legenda | aprox. 375 mil |
| Total projetado da legenda | aprox. 1,35 milhão |
Estimativas do autor. Os números não correspondem a resultados oficiais nem a levantamentos de institutos de pesquisa.
A leitura desse quadro exige atenção a um ponto que a discussão pública tem ignorado. Os sete nomes acima somam 975 mil votos, ao passo que sete cadeiras exigiriam do partido algo próximo de 1,35 milhão. A diferença, de aproximadamente 375 mil votos, teria de vir dos outros dezessete candidatos da nominata e dos votos de legenda, o que corresponde a uma média inferior a 22 mil votos por candidato, patamar exigente, mas compatível com uma estrutura de mais de cem prefeituras e centenas de vereadores. Daí a conclusão que me parece mais interessante deste exercício: caso as sete cadeiras venham, não terão sido decididas pelos sete nomes que estampam a propaganda partidária, e sim pelos dezessete que ninguém está discutindo.
A projeção, contudo, é condicional, e três variáveis podem invalidá-la. A primeira é a taxa de conversão do espólio de Otto Filho por Daniel Alencar, cujo desempenho definirá se a chapa recompõe ou não a maior parte da perda nominal de 2022. A segunda é a margem de Jerônimo Rodrigues no interior, pois a diferença entre vitória em primeiro turno e disputa prolongada até o fim de outubro altera de modo substantivo o comportamento das bases municipais nas semanas finais. A terceira é a competência com que o Republicanos explorará o ativo Coronel, uma vez que a construção de chapa competitiva em torno daquele grupo transferiria à oposição não apenas votos nominais, mas a própria rede de intermediação que os produz.
Há ainda um elemento de segunda ordem que a análise não deve omitir. Ficando o PSD fora da chapa majoritária, o partido libera recursos e energia organizacional para as disputas proporcionais, mas perde o puxador natural e sai do centro da narrativa da campanha. Avalio esse saldo como ambíguo, e não como inequivocamente favorável, conforme se tem sustentado em alguns círculos.
Feitas todas as ressalvas, o argumento permanece de pé na condição de hipótese. As eleições de 2026 poderão consolidar na Bahia um deslocamento que a legislação de 2021 já havia antecipado no plano normativo, transferindo o eixo estratégico dos grandes puxadores de votos para a organização territorial, e, se assim for, o PSD terá sido o primeiro partido baiano a compreendê-lo. Se 2022 foi a eleição dos grandes puxadores, 2026 poderá ser lembrada como a eleição em que a capilaridade territorial superou o protagonismo individual, e, nesse cenário, a sétima cadeira do PSD deixará de ser uma hipótese para tornar-se a expressão mais visível de uma estratégia construída ao longo de uma década.
Nota. Os resultados eleitorais de 2022, o quociente eleitoral do período e a legislação citada correspondem a dados oficiais. As estimativas de votação para 2026 e os cenários descritos são projeções analíticas do autor, sujeitas ao desenrolar da campanha.
Jerbson Moraes é advogado, mestrando em Direito e colunista.












