Cadê a merenda escolar?


Uma agenda de eventos cheia e os pratos dos alunos continuam vazios!
Eu venho da educação e venho do distrito. Eu sei o peso de uma merenda na rotina de uma família e sei, com um incômodo que não cabe em estatística, o que significa para uma criança a refeição que chega dentro da escola. Para muitos, é a única refeição realmente equilibrada do dia. Quando ela falta, não falta só comida. Falta concentração, falta humor, falta energia, falta dignidade. E o município, quando deixa isso acontecer, não falha apenas no administrativo. Falha no humano e falha no essencial.
Nas últimas semanas, o que se viu foi um retrato duro e repetido. Início de ano letivo sem preparação adequada de unidades, dificuldades estruturais apontadas em inspeções, relatos de ausência de alimentação escolar e de desorganização para servir o básico. Com o cúmulo de termos escola comunicando suspensão de aulas por falta de alimentação. A partir daí, as explicações passaram a girar em torno de promessas com data curta, segunda-feira isso, próxima semana aquilo, como se fome fosse um problema que aguenta empurrão e como se criança fosse um organismo compatível com adiamento. A fome tem pressa. E a aprendizagem também.
Agora se diz que, a partir dessa próxima semana, as escolas começarão a receber alimentos, mas não em sua totalidade. Só essa frase já expõe o tamanho do improviso. Começar a receber não é garantir, é iniciar um processo que deveria ter sido concluído antes da primeira chamada. E se não será em sua totalidade, qual o plano de cobertura para as unidades que ficarão no fim da fila? Qual é o estoque mínimo para não haver interrupção de aulas? Qual é o calendário público por escola, por rota, por região? Qual o protocolo para não transformar diretor e merendeira em alvo de angústia diária de pais que só querem saber se seus filhos vão comer?
Quem trabalha no chão da escola sabe que entrega não acontece ao mesmo tempo em todo lugar, nunca aconteceu. Exatamente por isso, a gestão precisa planejar, não anunciar. A logística exige roteiro, prioridade e transparência. E aqui entra um ponto que qualquer profissional responsável lembra de imediato: unidades de tempo integral precisam ser tratadas como prioridade absoluta. Tempo integral não é só mais horas de aula. É café da manhã, lanche, almoço, mais um lanche, é criança pequena que não pode ser mantida com um suco e um biscoito porque a rotina exige refeições completas. Se o município assumiu o tempo integral como política, assumiu também o custo e a obrigação. Não existe tempo integral no discurso e tempo parcial no prato.
O problema ganha contornos ainda mais graves quando surgem relatos consistentes de que o processo de contratação e licitação para alimentação escolar poderia ter caminhado com antecedência. Há informações de que a proposta técnica para a licitação foi encaminhada ainda em meados de 2025, justamente para evitar atraso, mas que o trâmite interno se arrastou, com idas e vindas, e que alguns lotes teriam ficado desertos por falta de interesse de fornecedores. Se isso procede, a pergunta é direta. Quem acompanhou o cronograma? Quem corrigiu a rota quando o primeiro sinal de atraso apareceu? Que medida foi tomada para evitar que o ano começasse sem a garantia de alimentação? O que foi feito quando o mercado não respondeu? Houve ajuste de lotes, revisão de preços, diálogo com produtores locais, estratégia alternativa, compra emergencial dentro da legalidade, algum caminho claro?
Porque alternativa existe. O Brasil construiu instrumentos para isso. A compra de alimentos da agricultura familiar, quando bem conduzida, é capaz de colocar comida de verdade no prato do aluno e renda na mão de quem produz no interior, inclusive nos distritos. É segurança alimentar e economia local funcionando juntas. Ilhéus tem campo, tem produtores, tem comunidades rurais que sabem muito bem plantar e colher. Então, por que a cidade continua refém de uma engrenagem lenta, sem plano B e sem comunicação clara? E ainda mais, quais são as pontes com programas estaduais e com políticas de apoio que podem complementar estrutura e logística, sobretudo em momentos de transição e recomeço de ano letivo?
Enquanto isso, a cidade se acostuma a ver agenda cultural, palco, holofote e postagem bonita com facilidade. Mas não vê a agenda pública de entrega de merenda. Não vê o cardápio publicado com antecedência. Não vê o calendário por unidade. Não vê a prestação de contas organizada de forma compreensível para a mãe, para o pai, que só precisam de uma certeza simples: “meu filho vai comer amanhã?” E, quando o poder público falha nisso, sobra para quem está na ponta. Direções pressionadas, merendeiras improvisando, professores tentando ensinar a quem não conseguiu comer, famílias sendo obrigadas a escolher entre mandar o filho para a escola ou mantê-lo em casa tentando resolver o básico.
Eu escrevo isso com indignação porque eu conheço a sala de aula que silencia quando a fome chega. A criança não faz discurso, ela baixa a cabeça, ela dorme na carteira, ela fica irritadiça, ela se desliga. E a cidade, se tem o mínimo de responsabilidade, não pode tratar a merenda como detalhe do cotidiano. Merenda é direito do estudante e dever do município. É política pública com impacto direto no aprendizado, na saúde e até na permanência escolar.
Então não basta dizer que vai chegar na segunda-feira. É preciso dizer quando chega em cada escola, com que quantitativo, com qual prioridade, com qual garantia de continuidade, com qual monitoramento, com qual transparência e com qual correção de rota para que nenhuma unidade fique sem, nem por um dia. O município precisa publicar um plano claro, por zonas e por cronograma, e explicar por que isso não foi resolvido antes do início do ano. Precisa apresentar as medidas adotadas diante de lotes sem fornecedor e precisa dizer como vai evitar que, no meio da distribuição, algumas escolas tenham alimento só até terça-feira, porque isso não é detalhe logístico, isso é rotina interrompida por falta de alimento.
Ilhéus não pode normalizar criança com fome e aula suspensa. Não pode aceitar que tempo integral vire promessa incompleta, não tem que conviver com escolas de bairros periféricos, distritos e bairros rurais. Não pode empurrar para depois o que é urgente agora. Educação começa no prato. E, como nos disse Betinho, “quem tem fome tem pressa!”
















