{"id":13422,"date":"2018-03-18T18:13:05","date_gmt":"2018-03-18T21:13:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ilheusnoticias.net.br\/v1\/?p=13422"},"modified":"2018-03-18T18:13:05","modified_gmt":"2018-03-18T21:13:05","slug":"artigo-quem-matou-marielle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ilheusnoticias.net.br\/v1\/2018\/03\/18\/artigo-quem-matou-marielle\/","title":{"rendered":"ARTIGO: QUEM MATOU MARIELLE?"},"content":{"rendered":"<p>JORNALISTA DELZA SCHAUN<\/p>\n<p>A pergunta reverbera na minha mente e s\u00f3 recebe uma resposta: A m\u00e3o que apertou o gatilho tem muitos bra\u00e7os, longos, verdadeiros tent\u00e1culos. O executor \u00e9 apenas um nome a encobrir cada comprador de coca\u00edna, vendedor de armas, pol\u00edtico corrupto. Cada um, que se beneficia do mercado da morte, guiou a mira dos tiros que atingiram Marielle e Anderson. Traficantes, milicianos, policiais de alma corrompida, governantes roedores, n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos respons\u00e1veis por cada pessoa que \u00e9 baleada no Rio de Janeiro no decorrer de sete horas. Os fatores que armam a viol\u00eancia s\u00e3o de agora e sempre; s\u00e3o hist\u00f3ricos, sociais, pol\u00edticos e \u00e9ticos. Nos anos 1800, o Rio tinha registros de 22 assassinatos em 5 dias, de pessoas v\u00edtimas de \u201cpedradas perdidas\u201d, de gangues dominando as ruas e piratas nos portos. 90% dos presos eram escravos. Eis que surge o Major Vidigal, que deu nome ao morro, homem violento, horror de uma classe social espec\u00edfica e desprotegida. Salvador da P\u00e1tria da \u00e9poca. No Morro da Provid\u00eancia, a primeira favela aparece quando os soldados, vindos da Guerra do Paraguai, ocupam a terra prometida e negada pelo Imperador. E eles foram seguidos pelas quatro mil fam\u00edlias moradoras do Corti\u00e7o Cabe\u00e7a de Porco, que tiveram suas casas destru\u00eddas pelo governante e tamb\u00e9m foram morar por l\u00e1. Era a pol\u00edtica de segrega\u00e7\u00e3o, que se perpetuou pelos anos seguintes. Entre a Aboli\u00e7\u00e3o e a Rep\u00fablica, nada foi feito para mudar essa realidade. Aos dois grupos que j\u00e1 ocupavam as favelas se juntaram os negros libertos. A persegui\u00e7\u00e3o se consolida. A geografia define o lugar de cada um, explorados e exploradores. A for\u00e7a dos fracos se mostra na viol\u00eancia. A arma, seja ela faca, capoeira ou metralhadora, empodera quem se sente menor. Foi a arma da sobreviv\u00eancia e do \u00fanico protesto poss\u00edvel. O s\u00e9culo virou e essas pessoas continuaram consideradas como promotores da criminalidade. A favela era Aldeia da Morte e pol\u00edcia s\u00f3 subia suas ladeiras em \u00faltimo caso. Para que? Deixem que se matem os homens que n\u00e3o respeitavam o C\u00f3digo Penal, dispostos a matar por qualquer motivo ou sem nenhum. Ningu\u00e9m se importa! A lei antidrogas foi promulgada na Ditadura de Vargas em 1938 para coibir o tr\u00e1fico de maconha entre os africanizados, mas a coca\u00edna era privil\u00e9gio das altas rodas da Zona Sul e nelas n\u00e3o chegava a lei. A pol\u00edtica habitacional sempre se voltou para manter essas duas castas bem separadas. Mas j\u00e1 n\u00e3o dava. Os 60\u2019s trouxeram estudantes e intelectuais para os morros, onde achavam seus baseados. A Ditadura Militar juntou presos pol\u00edticos e criminosos comuns nas mesmas celas. Uns aprenderam com os outros. A bandidagem saiu graduada no assistencialismo social, que foi aplicado nas comunidades para conquistar aliados. Novas gera\u00e7\u00f5es nasciam e as crian\u00e7as cresciam deslumbradas com o poderio daqueles \u201cher\u00f3is\u201d donos de tudo, meio pais, meio irm\u00e3os mais velhos, refer\u00eancias para seus futuros. Tr\u00e1fico, poder, armas, pobreza&#8230; E nada do Estado. Quem era esse Estado, distante e s\u00f3 para os cariocas do asfalto? Esgoto? Escolas? Postos de sa\u00fade? Transporte? Seguran\u00e7a? Nada disso chegava das autoridades. S\u00e9culos se repetiram em um looping desastroso de governos med\u00edocres e desumanos. Poucos os que conseguiam passar pelos donos do morro sem se tornar um dos 622 mil presos do Brasil de hoje, ou dos milhares de mortos nesse processo. A vida humana passou a valer menos que um rel\u00f3gio ou dez reais. Foi necess\u00e1rio que esses longos bra\u00e7os atingissem uma mulher negra, parlamentar, defensora dos favelados, para que em menos de 24 horas se montasse uma mobiliza\u00e7\u00e3o nacional. Espont\u00e2nea em muitos, aproveitadora em tantos. Todos precisaram se manifestar, por seus pr\u00f3prios motivos, nem sempre nobres. Inclusive eu. Vestir a camisa do luto, usar a hashtag #SomosTodosMarielle foi a ordem do dia por todos os lados. No calor da emo\u00e7\u00e3o, parece que tiramos algo bom da trag\u00e9dia e vamos reagir, sair da letargia bras\u00edlica. Morre Marielle, mas nascem milh\u00f5es de Marielles, somos todos os que tomaram as ruas, os microfones e as redes sociais com indigna\u00e7\u00e3o e desejo de justi\u00e7a, de mudan\u00e7a. Diferentes vozes contra tudo que est\u00e1 errado no Brasil, mas que parece se concentrar no Rio de Janeiro. A M\u00e1rtir Marielle, v\u00edtima de um violento crime pol\u00edtico, cumpre sua miss\u00e3o de levantar a Na\u00e7\u00e3o&#8230; Ou n\u00e3o, como diria o triste Caetano em seu quarto frio. DELZA SCHAUN 15-3-2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JORNALISTA DELZA SCHAUN A pergunta reverbera na minha mente e s\u00f3 recebe uma resposta: A m\u00e3o que apertou o gatilho tem muitos bra\u00e7os, longos, verdadeiros tent\u00e1culos. O executor \u00e9 apenas um nome a encobrir cada comprador de coca\u00edna, vendedor de armas, pol\u00edtico corrupto. 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